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A Três Mortes de Um Homem Banal de Nuno Amaral Jorge

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Rafael é um homem de quarenta anos perfeitamente normal, talvez até menos ambicioso do que a maioria. Tem uma relação tensa com a família, um grupo de amigos leais com os quais partilha problemas e os pequenos grandes sucessos da vida e uma mulher que, mesmo tendo saído da sua vida, continua a ser uma obsessão para ele. Tem ainda uma amiga a quem, em tempos, fez uma promessa terrível e que agora lhe está a cobrar essa promessa. É assim que começa o ano em que tudo mudará na sua vida: com uma promessa que precisa de cumprir, uma série de tumultos e desencontros na sua vida amorosa e um abalo feroz no seu núcleo de amigos. E que fará Rafael quando o mundo começar a desabar e um abismo se abrir debaixo dos seus pés?

Com o seu protagonista ambíguo e uma história que segue múltiplas linhas sem se cingir a nenhuma (à semelhança da personalidade da personagem principal), este é um livro difícil de descrever. Centra-se numa única personagem, mas constrói mundos inteiros à sua volta. Roça possibilidades de mistério, de crime, aproxima-se de uma faceta mais sombria, mas mantém-se no delicado equilíbrio entre as coisas ditas e as coisas por dizer. E, assim, estabelece para as suas personagens uma moralidade ambígua que é transportada para a história propriamente dita - onde tudo parece ser a promessa de um fim próximo, mas nada acaba verdadeiramente.

Domina a ambiguidade então, ao ponto de o final ser todo ele um grande ponto de interrogação acerca dos passos e do (possível) futuro do protagonista. E, ainda assim, tudo parece ter um equilíbrio eficaz. Aos momentos mais dramáticos contrapõem-se rasgos de profunda introspecção. Às escolhas difíceis e aos grandes picos de emoção opõem-se rasgos de um humor tão inesperado quanto eficiente. E se, no que toca a resoluções finais, tudo é curiosidade insatisfeita, não deixa de ficar, ainda assim, a impressão de que esse enigma global faz sentido. A vida continua... ou será que não? E as personagens? Não serão elas mais complexas do que uma simples história com princípio, meio e fim?

Parte do que torna este equilíbrio tão perfeito é, naturalmente, o registo da escrita. Ao narrar a história maioritariamente pela voz de Rafael, o autor abre a porta do seu complexo e conturbado interior. Os pensamentos tornam-se mais vivos, a confusão e a ambiguidade mais claras. E isto faz com que, mesmo quando não é fácil entender o comportamento das personagens, as motivações e o mecanismo interior que as faz mover estejam sempre bem presentes. Além disso, esta escrita introspectiva, de análise interior, a contrastar com a brutalidade dos momentos mais duros, proporciona também todo um conjunto de frases memoráveis - daquelas que dão vontade de ter um caderninho ao lado para anotar.

Não é uma leitura fácil, e muito menos fácil de descrever. Mas, com a sua viagem aos abismos pessoais e a fluidez de uma escrita que mergulha de cabeça na ambiguidade do pensamento das personagens, é um livro estranhamente cativante, tanto na história que conta como nos motivos do que deixa sem resposta. Leva o seu tempo, mas compensa amplamente a demora. E acaba por ficar na memória, tanto pela estranha viagem do protagonista como pelas belas palavras usadas para a contar.

 

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