A Imortal da Graça de Filipe Homem de Fonseca

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O bairro da Graça está isolado devido às obras. Ninguém entra e ninguém sai, excepto as crianças e os turistas, que parecem conhecer atalhos que mais ninguém é capaz de vislumbrar. Mas há um mundo inteiro contido naquela estranha prisão. Um homem arrasta móveis durante a noite, sonhando com a riqueza que o espera quando reclamar o seu prémio do Euromilhões. As velhas, últimas resistentes numa cidade rendida aos turistas, travam uma guerra silenciosa pelo direito de máxima antiguidade. Afinal, a idade é um posto. E Graça, a jovem Graça, pergunta-se que futuro a aguarda se a Menina Celeste, a mulher que a contratou e a mais velha de todas as velhas, morrer inesperadamente. Entretanto, as obras avançam, como o tempo. Devagar... ou quase sem se dar conta.

Não é propriamente fácil descrever este livro. Talvez devido à extravagância dos elementos e personagens que povoam esta história, ou ao ambiente onde tudo acontece, mesmo quando nada parece mexer-se, a imagem que fica é mais de impressões do que um traçado linear. Até porque linear é talvez a única palavra que não se pode aplicar a esta história. Desde o passado das gémeas e da isolada Menina Celeste, à sempre ambiciosa Glória, com as suas aspirações a... bem, à glória, passando pelo bizarro Gabriel, com os seus sonhos de uma vida que nunca vai ter e pelo estranho prédio que se vai afundando, guardando segredos nunca totalmente desvendados, há todo um conjunto de peculiaridades que fazem com que, embora situado numa cidade bem real, este livro pareça decorrer num mundo à parte.

Também a escrita tem o seu toque de unicidade, com o seu registo peculiar e os contrastes que constrói para as diferentes personagens. Permite entrar nos pensamentos - e que estranhos pensamentos esses! - das várias figuras principais, criando assim uma certa proximidade sem perder de vista o cenário global. Afinal, não há um verdadeiro protagonista. Poder-se-ia, aliás, dizer que o verdadeiro protagonista é o bairro. E, por isso, ao dar voz - e vozes singulares - aos pensamentos das diferentes figuras, o autor transmite também uma bastante credível sensação de multiplicidade.

Disse que não se trata de um livro linear e, assim sendo, não surpreende que fiquem perguntas sem resposta espalhadas ao longo de todo o caminho. Não deixa, ainda assim, de ser particularmente interessante a forma como tudo parece convergir para um clímax final: para Gabriel e Graça, mas principalmente para Gloria e Celeste, que encontram um fim à altura das suas muitas estranhezas - e uma bela surpresa com que encerrar a história.

Terminada a leitura, fica um intrigante contraste: o de uma história passada ali tão perto, mas ao mesmo tempo num mundo completamente diferente. Um mundo onde as pequenas aspirações pessoais servem de retrato de problemas bem vastos, desde o isolamento rompido por crianças e turistas (que conhecem atalhos que só eles conseguem ver) ao inevitável envelhecimento que, qual sombra, domina o mundo. E onde até nas mais pequenas coisas há algo em que pensar.

 

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