A Última Ceia de Nuno Nepomuceno

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O impensável aconteceu: duas das três preciosas réplicas do deteriorado fresco de Leonardo da Vinci foram roubados e tudo indica que esse é apenas o início do plano do ladrão. O caso é tão preocupante que as duas principais leiloeiras inglesas ofereceram uma considerável recompensa em troca de informação sobre o paradeiro das obras, mas nem isso parece bastar para as recuperar. E é neste cenário tenso que uma outra apaixonada pela Última Ceia entra em cena. É perante o original que Sofia Conti conhece aquele que julga ser o seu grande amor e futuro marido. Mas Giancarlo Baresi guarda segredos sombrios - e planos intrincados. E, de inocente apaixonada, Sofia vê-se subitamente transformada em agente infiltrada em casa do seu amante. 

Um dos aspectos característicos dos livros deste autor é um delicado - e delicioso - equilíbrio entre novidade e familiaridade. Novidade porque cada um traz um tema diferente, sempre interessante e, neste caso, particularmente intrincado. Familiaridade porque há um conjunto de elos comuns que fazem com que cada livro seja como um agradável regresso a um lugar - ou, antes, a um sentimento - onde já fomos felizes. 

Os pontos comuns são vários e, naturalmente, todos muito bons. Desde a escrita fluída e cativante, que faz com que seja impossível resistir a ler mais um (ou mais uns quantos) capítulos ao entrecruzar de caminhos entre personagens novas e outras já conhecidas, construindo uma nova história central, ao mesmo tempo que desenvolve estas figuras que já tão familiares se tornaram. Por isso, embora seja um livro totalmente independente e, como tal, perfeitamente compreensível sem ter lido nenhum dos anteriores, a sensação de familiaridade aumenta se já conhecermos estas figuras cativantes. 

Isto não se aplica apenas a Afonso Catalão, que, mais uma vez, tem um papel relevante a desempenhar na resolução do problema. Claro que é ele quem mais se destaca, até porque há um conjunto de desenvolvimentos interessantes acerca da sua história pessoal. Mas há pequenos e encantadores detalhes, como o ressurgir de uma "vítima" passada de um certo jovem de olhos pardos ou a referência a um livro de um autor português que escreve sobre espiões, que acrescentam um leve (mas, mais uma vez, delicioso) elemento de surpresa e uma agradável sensação de reencontro.

Mas passemos à história principal. Também aqui há pontos comuns a destacar. Começando, claro, pela intensidade, bem como a sucessão de surpresas e também a forma como o enredo se encaminha para uma grande resolução, para depois culminar num final que, encerrando de facto as coisas, nunca é uma conclusão limpinha e perfeita. Haverá, talvez, uma maior concentração no casal protagonista, o que faz com que algumas das surpresas finais tenham um maior impacto, mas sem nunca perder de vista o mundo - e os outros - que os rodeiam. Além disso, há todo um mundo de revelações acerca do mundo da arte, principalmente no que diz respeito à obra que está no cerne de toda a narrativa, e também isto torna a leitura muito mais interessante. 

Tudo se resume, enfim, essencialmente a isto: um livro intenso, viciante, com personagens notáveis e um equilíbrio tão perfeito entre todos os seus elementos que é difícil não sentir que viajamos na companhia destas tão interessantes figuras. Mais que à altura das expectativas, um livro que recomendo vivamente.

 

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