Pecados Santos de Nuno Nepomuceno

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Tudo começa com um homicídio altamente ritualizado numa sinagoga em Londres, uma espécie de encenação blasfema do sacrifício de Abraão. Mas aquele é apenas o primeiro crime e, embora haja um suspeito preso e bastantes provas a implicá-lo no caso, a situação cedo se revela bastante mais complexa. Ao crime em Londres, seguem-se outros em Lisboa, todos repletos de simbolismo e de brutalidade. É neste cenário que o professor Afonso Catalão se vê arrastado para o caso: enquanto namorado de Diana, vê-se naturalmente intrigado pelo que parece ser uma boa história. E, ao descobrir que o suspeito detido em Londres é filho de uma das mulheres do seu passado, Afonso descobre novos motivos para ajudar. Mas as pistas são escassas. As mortes acumulam-se. E os fantasmas do passado - de vários passados - começam a vir à superfície...

De vez em quando, deparamo-nos com um livro tão fascinante e repleto de qualidades que se torna difícil escolher explicar as sensações que despertam e escolher um ponto por onde começar. É o caso deste Pecados Santos. Com o seu ritmo intenso, escrita viciante, personagens complexas e história cheia de surpresas, não há nada que não seja, de alguma forma, uma qualidade e, assim sendo, torna-se difícil escolher o que dizer e o que deixar para o futuro leitor desvendar. 

Porque, futuro leitor, este livro é brilhante, e por todas as razões. Mas é preciso aprofundar um pouco mais esta afirmação, não é verdade? Vamos por partes, então. E a primeira parte passa... por recomendar outros livros. É que, sendo embora um livro totalmente independente, há toda uma série de razões que justificam ler todos os outros livros deste autor. Desde o muito agradável reencontro com Afonso Catalão, cujo percurso se torna ainda mais marcante conhecendo outros aspectos do seu passado, à história de outras personagens também vindas de um contexto anterior e que desempenham aqui um papel entre o relevante e o avassalador, passando, naturalmente, pela pequena profusão de detalhes deliciosos, como a menção a um tal de André Marques-Smith e a procura de um manuscrito raro da autoria de um autor de nome estranho que escreve "umas historietas de espionagem". Há força nos grandes momentos, mas há magia também nos mais discretos, e isso é também uma espécie de brilhantismo.

Mas concentremo-nos nesta história específica - e, uma vez mais, no seu aparente protagonista. Aparente porque a história está muito longe de se resumir apenas a Afonso, embora ele pareça estar no centro da tempestade. Afonso é uma figura atormentada por pecados passados, e isso faz com que seja a personagem ideal para acompanhar este complexo e intrigante mistério. É, além disso, hábil na interpretação de simbolismos, o que torna muito mais interessante acompanhar o ritmo das descobertas, até porque a sensação que fica é a de estarmos a fazê-las ao mesmo tempo que as próprias personagens. Junte-se a isto todo um conjunto de outras personagens carismáticas - a quem acontece muita coisa marcante e perturbadora - e o resultado resume-se numa única palavra: irresistível.

E, se as personagens são marcantes, o que dizer do enredo? Quase num piscar de olho ao filme Sete Pecados Mortais, pelo menos no que ao simbolismo dos crimes diz respeito, mas transpondo-o para algo de novo e com uma identidade muito própria, a história intriga desde os primeiros momentos e leva-nos de surpresa em surpresa até um final puramente devastador. Devastador não só pelo impacto, mas pelo contraste entre os rasgos de leveza e o choque final, e, claro, pela crueldade que insiste em cruzar o caminho de homens essencialmente bons. 

Termino, pois, tal como comecei: reforçando o impacto deste livro brilhante e cheio de qualidades, tanto nas grandes revelações como nos pequenos gestos. Intenso, viciante e devastador, um livro irresistível e surpreendente. E que recomendo a todos. Mas mesmo, mesmo todos. 

 

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