Carla Ribeiro de "As Leituras do Corvo"

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Chamo-me Carla Ribeiro, tenho trinta e dois anos e sou portuguesa. A leitura é uma parte essencial da minha vida. Leio um pouco de tudo, desde romances a auto-ajuda, passando pela divulgação científica e até pelos livros infantis, mas os meus géneros de eleição são mesmo a fantasia e o romance histórico. Talvez se deva aos livros repetidamente devorados na juventude, em que descobri histórias como as da série Harry Potter ou o livro O Nome da Rosa, fonte de uma das minhas obsessões recorrentes: as histórias passadas em ambiente medieval.

 

Aos clássicos, os preferidos, entenda-se, cheguei mais tarde, embora já na escola, ao ler os “inevitáveis”, eles estivessem presentes. O meu preferido, Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell, ainda é menos conhecido entre nós do que deveria, mas é algo de simplesmente brilhante. Talvez as pessoas não os leiam tanto por causa dessa ideia vinda da escola (leitura obrigatória, dissecar as frases mais pela forma do que pelo conteúdo…) Enfim, pode fazer com que o encanto se torne esforço, o que não é propriamente o maior dos incentivos. Mas o aparecimento de novas edições, bonitas e apelativas, está a colmatar um pouco essa falha. Agora falta descobri-los. Falta ler.

 

Influenciar para a leitura pode ser um terreno delicado: porque onde acaba o incentivo e começa a obrigação? Mais do que impor, acho que reforçar a ideia de que ler é um prazer (e oh, se é…) é a melhor forma de pôr as pessoas a ler. Descobrir uma história que encanta, pegar num livro daqueles que fazem desaparecer o mundo e os seus problemas enquanto estamos lá dentro, ou então pegar num daqueles que nos fazer ver o mundo de outra forma… O potencial é tão grande que, quando se encontra o livro certo, a experiência fala por si. É preciso é incentivar essa experiência: mas de forma livre. Ler seja o que for, sem preconceitos, sem ideias de géneros menores. Ler um livro simples, pequeno… seja qual for a característica que agrada menos a quem avalia… é melhor do que não ler.

 

Incentivar implica alguém disposto a aceitar o incentivo. É como se houvesse vários graus. Pegar num livro e dizer a alguém que diz que “não gosta de ler” para simplesmente ler pode não ter um resultado directo se a pessoa não estiver assim tão interessada. Mas se alguém ouviu falar da história e ficou curioso, ou se viu uma adaptação e ficou com aquele bichinho da curiosidade insatisfeita… então falar do livro e das suas qualidades pode muito bem ser o empurrãozinho que falta. A minha tendência é mais a de recomendar livros a outros apaixonados pela leitura do que propriamente a quem nunca a conheceu a fundo – afinal, é mais fácil interagir quando já se tem esse terreno comum.

 

Actualmente, vêem-se muitas estatísticas dramáticas sobre a leitura, de pessoas que lêem um livro ou menos por ano, de muitos que não lêem de todo. A mim, assusta-me um bocadinho. Não consigo conceber um ano de vida em que só lesse um livro. Mas a minha experiência limitada diz-me que, a contrapor a esse lado, há os leitores como eu: que devoram livros como se não houvesse amanhã, que encontram nessa paixão um sentido especial, que descobriram nos livros o amigo constante de que tanto precisamos às vezes.

 

Incentivos de leitura… Outra coisa que ouvimos dizer muitas vezes é que os livros são caros e, se olharmos para o rendimento das pessoas, a verdade é que é difícil encaixar os livros num orçamento familiar. Mas há alternativas, não é? Bibliotecas, grupos de troca, promoções apetitosas… Além disso, o alcance pode ser limitado, mas desenvolver actividades relacionadas com a leitura (clubes de leitura, histórias para os mais novos, encontros com autores…) pode também ser uma forma de despertar ou aumentar o bichinho dos livros.

 

Descobrir os clássicos é mais do que a análise formal que fazemos na escola, embora importe dizer que ela tem, efectivamente, a sua importância. E, sendo certo que o meu eu mais novo já lia alguns clássicos, voltar lá mais tarde dá-nos uma nova perspectiva. Por isso, se eu pudesse falar com o meu “eu” que analisava poemas e outras obras clássicas na escola, dir-lhe-ia isto: fixa a forma, assimila a informação, porque é relevante. Mas vê o que a história te diz a ti, pessoalmente, e descobrirás a verdadeira magia que lá está. E que há muito mais à tua espera.