Gente Feliz Com Lágrimas de João de Melo

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Gente Feliz com Lágrimas fala de um modo de vida dos Açores, esquecido, alterado pela queda do regime ditatorial, um tempo e modo de vida que não voltará a existir, mas que não deixa de ser importante ser relembrado, era um tempo sofrido e pobre em amor, mas um tempo de trabalho e escravidão que não poupava nem homens, nem mulheres, nem crianças.

O livro tem uma escrita crua, cravejada de vocábulos tipicamente açorianos, de costumes e modos de vida estranhos aos de fora, mas uma escrita que flui e faz-nos virar páginas, que nos leva numa história perdida num tempo estranho a quem não cresceu no meio desta gente narrada nas páginas, relata uma vida sofrida, numa miséria que doí de imaginar.

O livro inicia-se com a viagem de barco entre São Miguel e Lisboa, o sonho de quase todas as pessoas que viviam da terra, a fuga ao trabalho ingrato, a procura por uma vida melhor, por uma felicidade que nunca seria alcançada na terra natal, mas não sem levar consigo as últimas memórias do pico da Vara e não sem aludir a Santa Bárbara que protegesse do mar revolto e dos enjoos constantes das vagas das ondas, o adeus a neblina da manhã que envolve os campos e o verde incessante que se cruza com o azul do mar. A história é narrado pelos três irmãos mais velhos, Nuno Miguel, Maria Amélia e Luís Miguel.

Nuno Miguel um dos narradores da história foi o terceiro rapaz a nascer, seguido pelo gémeo que por falta de capacidade emocional dos pais e vontade de querer gastar dinheiro com uma criança doente, morreu com pouco tempo de vida, deixando Nuno orfão de irmão e talvez da única pessoa que o poderia verdadeiramente compreender. Foi nesta vida que Nuno Miguel nasceu, com falta de afeto dos pais foi criado pela irmã mais velha Maria Amélia, o fato que teve a sorte de sobreviver não lhe deu a sorte de ter uma vida feliz, nada era feliz na casa da família, os rapazes apenas serviam para força de trabalho quase escrava na terra e na lavoura, as raparigas para a lida da casa, Nuno Miguel desejava morrer em algumas alturas da sua vida, quando não aguentava com o trabalho da terra e quando já não conseguia ser ninguém na família, dado o seu físico fraco de criança doente que nunca recebeu os devidos cuidados. Este recorda apenas uma memória feliz da sua infância uma altura que após ter apanhado um sova tão grande do pai, acabou doente na cama, com febre e sem comer, recorda então com carinho os olhos cheios de lágrimas do pai quando finalmente conseguiu engolir umas colheres do caldo de farinha que “mamã” lhe preparou.

Nuno Miguel sempre foi uma criança franzina, pouco apto para o trabalho da terra, quase morria com os trabalhos que o pai lhe dava, corria para as aulas, queria ser alguém, longe da terra que o viu nascer, foi para o seminário, onde começou a questionar demasiado, foi expulso, foi Maria Amélia, a irmã mais velha, que o acolheu, mas com quem não conseguia ter uma boa relação, pois na sua fase de rebeldia pós seminário, queria conhecer mulheres, que nao as amigas enfermeiras da irmã e conhecer a noite lisboeta, escreveu para jornais, tinha a ambição de ser um preso político, foi um triste infeliz até se apaixonar por Marta, a única mulher que lhe mudou a vida.

Teve uma vida sofrida, sem sorte, tornou-se professor e depois escritor, vivia de altos e depois de baixos, não dava aos filhos o amor devido, o amor que nunca teve dos pais, deixou acabar-se o amor que tinha com a mulher, acabando por divorciar-se mais tarde.

Haviam ainda mais nove irmãos, Luís Miguel o mais velho e que mais sofreu como se fosse a mula de carga da família e Maria Amélia, a que nunca teve direito a infância ou sequer a cuidados de saúde devido à devoção dos pais pelas notas passadas a ferro e arrumadas numa gaveta para uma possível compra de terreno ou vacas.

A família não era exatamente pobre, mas não gastava um centavo com os filhos, estes sofriam cada vez que precisavam de óculos, de antibióticos ou de um pouco mais de comida.

Maria Amélia recorda a sua infância vivida numa casa em condições insalubres onde as vacas de manhã atravessavam a casa para irem pastar durante o dia, recorda ser a empregada da mãe que a obrigava a cozinhar, as tareias que apanhava sempre que não colocava a quantidade de sal suficiente, quando não cuidava dos irmãos e fala apenas de um único momento de brincadeira na sua infância, momento este que se perdeu nas horas e desfrutou das bonecas de trapo e da imaginação que nunca havia usado nas tarefas árduas que a mãe lhe obrigava a fazer, nessa altura que estava a cuidar dos gémeos, quando os dois ainda eram vivos e esquecendo as horas viu a mãe a entrar e encontrar os gémeos sujos e com terra, do chão da casa, isto valeu a Maria Amélia uma sova tão grande que durou o dia todo, sempre que a mãe lhe ouvia chorar tinha um acesso de raiva e voltava a bater-lhe.

Maria Amélia viu-se a ficar feia com os óculos que partia para que o pai lhe comprasse novos, uns óculos que devolvessem a beleza que estes escondiam, mas que o pai, severo, apenas voltava a colar e a bater-lhe para que tivesse cuidado da próxima vez, tudo naquela casa funcionava à base da tareia, Maria Amélia cresceu sem amor, sem ninguém a quem contar as suas mágoas, sem infância, a criar filhos que os pais faziam tão rápido que um ainda nem tinha crescido outro já aparecia, até ao dia em que Maria Amélia conheceu as irmãs freiras que lhe apareceram à porta a recrutar meninas para o convento, e foi com elas que desabafou todas as suas mágoas, com quem chorou e em quem viu uma réstia de esperança para o seu futuro, réstia essa que desapareceu, quando após chegar ao convento era tratada tão mal como em sua casa, aí percebeu que o que tanto lhe havia custado convencer o pai a deixar-lhe ir para o convento não lhe trouxe a felicidade que esperava e pouco tempo depois, adoeceu e as irmãs freiras expulsaram-na do convento, afirmando que os pais mandaram-na na base da má fé, uma menina mulher que já era doente para que o convento cuidasse dela, viu-se a voltar para casa, a mesma que não havia mudado desde a sua infância, a mãe não lhe comprava os antibióticos que realmente precisava, apenas os mais baratos, aqueles que não a ia curar, mas que apenas iam mascarar os sintomas da doença.

Foi o irmão mais velho que vendeu a sua vaca para pagar a passagem da irmã para voltar ao continente e aí tratar-se, Maria Amélia estudou com dinheiro emprestado até se tornar enfermeira e após este feito, estendeu sobre a cama o dinheiro do seu ordenado, apreciou-o e depois foi pagar a quem devia. Cuidou de Nuno Miguel e viajou para Luanda, onde ficou até ao 25 de abril de 1974, de onde saiu apenas com duas malas de roupa, depois, mais tarde para o Canadá, onde lavou casas à espera que o diploma tivesse a equivalência Canadiana e mais tarde criou as filhas de forma diferente, mas guardava ainda em si, a memória do pão com manteiga com café, algo que era uma luxo na sua infância, que comia apenas na casa da tia da América, após muitos anos a comer pão de milho com açúcar. Vivia uma vida diferente, mas continuava com os mesmo traumas de infância.

Luís Miguel poderá ter sido o irmão que mais sofreu, cresceu para tornar-se um homem de trabalho, trabalhava mais do que o pai, cresceu em tamanho e força, defendia a honra da família, protegia os irmãos mais novos, houve uma altura em que bateu nuns rufias quehaviam humilhado o pai, e mais tarde foi mandado para a Guiné por ter batido num rapaz que tentou aproveitar-se da irmã, sofreu horrores e viu horrores, apr aonde fosse a sombra autoritária do pai o perseguia, quer fosse no corpo dos oficiais do exercito ou na figura do Bosses Canadianos que se aproveitavam dele, semana após semana, para trabalhos pesados e árduos e depois o dispensavam, sofreu com a adaptação ao frio cruel do Canadá, à língua que tanto lhe custou a aprender e à vida que lhe estragou o corpo e alma até obter um pouco mais de felicidade que pensava este que se definia pelo tamanho da casa e pelo carro.

Quase todos os irmãos, com a exceção de Nuno Miguel encontravam-se no Canadá, terra que viu o pai morrer de cancro e terra que Nuno Miguel visitou a mãe que morria de cancro.

Pela altura da morte de “mamã” aquela mãe cruel como o pai, os filhos todos estavam à sua volta, Nuno Miguel herdou a casa de infância, pois for ao único que nunca saíra de Portugal, que nunca acumulara fortuna como os irmãos, Maria Amélia vinha dar as injeções de morfina que “mamã” precisava e Luís Miguel estava acabado por todo o trabalho pesado que havia feito na vida.

Nuno Miguel volta a Portugal, divorcia-se da mulher e regressa aos Açores, forºa a porta da casa de família, a casa da infância sofrida, com a natureza que envolveu a infância dele, com o mar a pouquíssimos quilómetros de casa, onde nunca foi com o pai, onde ainda paira a neblina, mas onde já não se encontra o tempo sofrido, apenas a mágoa de ser divorciado num ilha solitária.

 

O livro contém episódios que merecem algum destaque:

O pai era um homem odiável e desprezível, tinha poucos amigos, os filhos nunca eram convidados para a matança do porco, evento que juntava ruas inteiras, nunca recebiam cartas de chamada para o Canadá e para a América, não haviam amigos com quem brincar e nunca brincavam na rua até tarde, pois tinham de levantar cedo para trabalhar na terra.

A mãe era uma mulher cruel que nunca dera afeto ao filhos, um ciclo que os filhos não conseguiram quebrar.

A mãe, na altura em que o gémeo de Nuno Miguel morreu, desejou a morte de um dos filhos para que assim a poupasse de noites mal dormidas e de mais uma visita do médico que lhes ia custar o dinheiro arrumado na gaveta.

A família tinha posses, mas tinha o culto das notas passadas a ferro e guardadas no fundo da gaveta, faltava comida para as crianças, faltavam medicamentos e falta tempo para crescerem.

Luís Miguel teve uma namorada numa certa altura, mas esta e todas as outras não o quiserem por causa da sua família.

Haviam ao todo nove irmãos que sobreviveram a infância terrível que fadava as crianças da família, todos nasciam de seguida, e Maria Amélia fora a mãe que conseguiu ser para os mais novos.

Quando um bebé da família morria era o pai que ia para a casinha e construia o caixão para o filho.

Numa altura da infância das crianças a família mudou de casa, na casa nova havia um lugar para as meninas e outro para os rapazes, o pai construia algo novo para a casa todos os dias, e como família remediada que eram receberam muitas coisas de segunda mão.

Enquanto Maria Amélia cuidava da casa, das crianças e da comida, “mamã” bordava com mais uma filha, uma vida mais leve que os mais novos conheceram.

Nuno Miguel admite quase não reconhecer os irmãos mais novos que se apercebe que nasceram ou eram muito novos quando este saiu de casa. Este também tinha vários pseudónimos que usou durante alguns anos na sua escrita.

Marta tornou-se uma mulher amargurada com o casamento com Nuno Miguel e divorciou-se, Nuno Miguel deixou de cuidar da aparência e perdeu a auto-estima.

Percebe-se que Nuno Miguel voltou e deixou-se ficar na ilha onde nasceu e viveu o resto da sua vida aí.